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Luta pela paridade na CUT é fruto de 26 anos de construção da política de gênero na Central

04/04/2012

Escrito por: Tatiana Melim - CUT-SP

 

  O resgate histórico da política de gênero na CUT e o atual debate sobre a paridade entre homens e mulheres foi tema central do Seminário “Nenhum direito a menos, nossa luta é pela igualdade”, organizado pela Secretaria Estadual da Mulher Trabalhadora. A CUT completará 29 anos e a luta das mulheres pela construção da política de gênero no interior da Central acontece há 26 anos.

 

Para as mulheres chegarem ao atual debate sobre a paridade de gênero nos cargos de direção da CUT muita luta teve que ser feita. “Era muito difícil nós discutirmos algo que não fosse creche e maternidade. Nós não podíamos discutir posto na executiva, por exemplo. Nós podíamos ajudar a construir, mas na hora de participar não”, explica Luci Paulino, ao relembrar o período de 1994 a 1997, em que coordenou a Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora.

 

Esse resgate feito pela Luci vai de encontro à quantidade atual de clausulas ligadas a questão da maternidade e gestação, em que corresponde cerca de 50% de toda a negociação relativa às pautas das mulheres no mercado de trabalho. Para Adriana Marcolino, socióloga da subseção do Dieese na CUT, o acúmulo de clausulas referentes a maternidade tem uma explicação histórica da luta das mulheres, porém, alerta para o fato de que há muitas outras questões a serem enfrentadas, assim como a desigualdade salarial.

 

Rendimento Médio de Trabalhadores/as formais em São Paulo (dez/2011):
 

Mulheres: R$ 1.224,00

Homens: R$ 1.765,00

 

- Acesse aqui outros indicadores sobre as mulheres

 

“Somos metade da população brasileira e a outra metade fomos nós, mulheres, que parimos. Mesmo assim, os números continuam indicando a desigualdade salarial, a dupla jornada e a falta de participação da mulher na política e nos espaços de poder”, alerta Juvândia Moreira, presidenta do Sindicato dos Bancários de SP, Osasco e região.

 

Ela defende que para alterarmos essa realidade é necessário começar a mudar a cultura machista em nossa sociedade e mostrar que as relações precisam ser compartilhadas, ou seja, significa que homens e mulheres precisam realizar uma divisão justa das atividades como, por exemplo, compartilhar as tarefas do lar. A igualdade de oportunidades deve atingir todos e todas.

 

De acordo com os dados do Dieese, no trabalho formal os homens possuem jornadas maiores, em média 42 horas semanais, enquanto as mulheres realizam uma média de 35 horas por semana. No entanto, as mulheres trabalham 22 horas por semana em casa, enquanto eles dedicam cerca de 10 horas para tarefas domésticas e educação dos filhos.

 

É preciso quebrar paradigmas

Além de desmistificar a ideia de que as tarefas do lar são funções para a mulher exercer, é preciso consolidar o fato de que homens e mulheres são capazes de desenvolver qualquer tarefa. A política, por exemplo, não é para ser exercida somente por homens. As mulheres podem e são capazes.

 

“As mulheres estão ampliando a sua participação e se destacando. Esse fato não acontece somente por causa da política de cotas, mas pela competência. Temos que defender não só a cota, mas também a ampliação e a qualificação da participação das mulheres sempre”, defende Daniel Reis, Secretário de Comunicação da CUT/SP, presente na mesa de abertura do seminário.

 

Criação da Comissão sobre a Mulher Trabalhadora da CUT

Da aprovação da comissão até a implantação levou muito tempo. “De início, o mais importante era a solidariedade feminina e feminista”, brinca Maria Mendes, Coordenadora da Comissão Estadual sobre a Mulher Trabalhadora de 1987 a 2003. Ela explica a necessidade da união das mulheres naquele momento para buscarem a ampliação de suas participações e desmistificarem o argumento de que as mulheres não estavam na direção porque não eram sindicalizadas. “Logo buscamos então a fazer a campanha de sindicalização e quebrar o mito de que mulher não podia participar”, completa.

 

Atualmente, a taxa de sindicalização das mulheres é de 17%, enquanto dos homens é de 20%. Do total de mulheres que trabalham no mercado formal, 40% são sindicalizadas, o que corresponde a um número alto frente à luta difícil das mulheres no movimento sindical, historicamente machista, assim como a cultura da sociedade.

 

“Nascemos em uma cultura preconceituosa, machista, excludente e capitalista. Sabíamos que era essa a realidade que tínhamos que mudar. Para isso, queríamos que os nossos companheiros nos ouvissem e entendessem que nós éramos de fato, mas não de direito, pois nem direito a voto nós tínhamos. Podíamos participar do debate, mas não das decisões”, relembra Ivania Alves, Coordenadora da Comissão Estadual da Mulher Trabalhadora de 2003 a 2006, ao reconhecer os avanços que as mulheres tiveram nesses anos de luta por maior participação no movimento sindical.

 

No decorrer da luta, foi aprovada a cota mínima de gênero de 30% para os cargos de direção da Central na 6ª Plenária Nacional da CUT, em 1993. No 9º CONCUT, em 2003, houve a transformação da Comissão Nacional sobre Mulher Trabalhadora em Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT. Já a Comissão Estadual sobre a Mulher Trabalhadora conseguiu a condição de Secretaria Estadual da Mulher Trabalhadora de São Paulo em 2006, no 11º CECUT.

 

Paridade na CUT

Na 13ª Plenária Nacional da CUT, ocorrida em outubro de 2011, foi aprovado que o tema da paridade seria debatido no interior da Central, com a possibilidade de ir a voto no próximo Congresso da CUT, que acontecerá em julho deste ano.

 

A partir de então, o tema passou a ser prioridade para as mulheres CUTistas, inclusive para ser levado e ampliado nos Congressos Estaduais que antecederão o 11º CONCUT.

 

“Esse debate tem que ser um debate da Central. Por isso, é preciso que todas nós tenhamos a compreensão do que está posto no debate e todos os argumentos, pois não adianta aprovar a paridade e não dar as condições de participação efetiva das mulheres na luta”, defende Rosane Bertotti, secretária de Comunicação da CUT nacional.

 

E completa: “O Estatuto por si só não basta, é preciso ter política para tirar a intenção do papel. Por isso, reafirmo que a paridade se constrói no dia a dia, a começar de hoje”.


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